O primeiro domingo da Quaresma nos reserva o evangelho das
tentações de Jesus (Lucas 4,1-13). Visto que nos é proposto um caminho de
conversão para esse tempo que prepara a celebração da paixão, morte e
ressurreição de Jesus, a conversão significa nova vida. A quarta feira de cinzas
nos proclamou: "convertei-vos e crede no evangelho".
Jesus tentado no deserto nos proporciona ensinamentos úteis,
porque também nós estamos expostos ao risco da tentação. Ela faz parte de nossa
vida: encontra obstáculo continuamente nas ocasiões de fazer o mal. Com a força
de Deus poderemos superar o mal.
O que faz o mal não é a tentação em si, mas o ceder à tentação. Na
tentação de Jesus, o que conta realmente não é a materialidade
dos lugares e de coisas, onde e como foi tentado, mas como reagiu a consciência
de Jesus. Certamente a Igreja das origens recorreu a este relato para exprimir
com linguagem humana, plena de símbolos, a atitude que Jesus assumiu diante da
existência, ao mundo criado, e ao Criador. A atitude de Jesus nas várias
situações da vida era certamente justa. E cada cristão de fronte às tentações
deveria aprender a comportar-se como fez Jesus.
No relato do evangelho, o tentador, Satanás, apresenta a Jesus
três ofertas. Na primeira, Satanás propõe o domínio sobre os bens
materiais: converter a pedra em pão. Na segunda, o domínio sobre os
homens: O poder sobre reinos, se Jesus se prostrasse diante do demônio. Na
terceira oferta, é oferecido ao Senhor o domínio sobre as forças misteriosas do
criado, os puros espíritos: atirar-se do mais alto do templo, sustentado pelos
anjos. Em substância são oferecidas por Satanás três ordens de bens: as coisas
materiais compreendidos os reinos dos homens, e o domínio sobre os anjos e os
seres espirituais. Que coisa se poderia oferecer a mais a um homem, e que coisa
ele poderia desejar a mais?
As tentações podem ser reunidas e formar uma só: organizar a
própria existência no sentido egoísta, materialista, horizontes baixos, sem
qualquer referência ao mundo do espírito; o eu como centro do
universo.
Jesus não se deixa enganar pelas ofertas. Replica com três
respostas que formam uma só, global, definitiva. Cada vez, diz: "Está escrito!":
"Não só de pão vive o homem". O homem tem necessidade não somente de coisas
materiais, mas muito mais de valores espirituais, de referências ao depois, às
últimas coisas, ao eterno, a Deus.
Quanto ao domínio sobre os homens, Jesus responde que esse está
reservado exclusivamente a Deus criador. Nenhum homem deve adorar outro homem,
nem fazer-se adorar por outro homem. No vértice da escala dos valores, o homem
colocará unicamente Deus.
Quanto ao domínio sobre os anjos, Jesus responde: "Está escrito:
Não tentarás o Senhor teu Deus". Isto significa: confiar-se a Deus, confiar a
ele na normalidade da vida, e não pretender dele intervenções prodigiosas e
extraordinárias.
Em todos os três casos, Jesus faz referência à organização da
existência que não se fecha no âmbito estreito das coisas materiais, do humano,
mas se abre ao que se eleva sobre a matéria, no mundo do
espírito.
Também nós aprendemos que no universo existe alguém mais
importante que a matéria, existe o invisível, existe Deus que criou por amor, e
dá sentido verdadeiro e pleno à existência. O Pai de Jesus, a quem rezamos
"Pai nosso".
Todos nós somos tentados como Cristo: tentados de voltar as costas
a Deus Criador; de pararmos diante das coisas para possuí-las; de querer dominar
sobre os outros, de colocar-nos no centro do mundo: pessoas e povos, caídos na
tentação. Situações de violência e prepotência onde um exaltado demonstra uma
irreprimível vontade de poder.
Nossa
geração está vendo tantas maravilhosas conquistas em todos os campos do saber e
do domínio da matéria; parece sujeita às tentações do poder muito mais que as
gerações precedentes. Ao nível de cada um, estamos imersos na sociedade opulenta
do consumismo. Um dos maiores problemas de cada dia é que nos encontramos diante
de tantas tentações, que não temos nem tempo de ceder a
todas.
CARDEAL GERALDO MAJELLA
AGNELO
Arcebispo de São salvador da
Bahia/BA
Primaz do
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