É difícil determinar no que consiste e como se dá a santidade da
Igreja ou, se quisermos, do povo de Deus. A santidade do povo de Deus é
atribuição divina, na maioria das vezes invisível a nossos
olhos.
Nos dias de hoje, muitas entidades religiosas estão envolvidas com
a evangelização, utilizando as modernas tecnologias, crendo que dessa maneira
estão atingindo objetivos significativos.
Se admitirmos que a santidade e suas consequências "se tornam mais
profundas à medida em que isso implica a penetração da mente do fiel e da alma
do povo" (Frederico Ruiz, Comp. Teologia Espiritual, pág. 411, Loyolla) somos
levados a considerar que as narrativas contidas no Livro do Êxodo são como uma
realidade desejada por Deus, que intentava, na ocasião, em linhas gerais,
ensinar ao povo o significado da verdadeira libertação do Egito, com a vantagem
de que a pessoa passasse por essa experiência espiritual com a intensidade de
atos reais (sentir na própria carne), experiências (aprendizado) das quais
necessitamos como seres feitos para o desenvolvimento espiritual. Daí a
atualidade desse livro bíblico.
Para os que não estão
familiarizados, o Êxodo (segundo livro da Bíblia) narra uma série de fatos
ligados ao povo israelita, que depois de libertados por Moisés do jugo egípcio,
dirige-se pelo deserto para a terra de Canaã (séc. XIII AC). Esse trajeto dura
em torno de quarenta anos, durante os quais o Senhor vai manifestar-Se àquele
povo, incutindo-lhe no coração o Seu amor por eles.
Por isso, o livro do Êxodo, ao ser considerado como narrativa de
um povo que procura seu próprio rosto e por extensão o do Criador, cria
significações para nossos dias, nos lembrando de que o homem da atualidade
(virtualmente científico e emocional) necessita, religiosamente falando, de uma
pedagogia que o faça perceber a necessidade de Deus em sua vida, ainda mais
considerando que a cultura, como está posta, quer nos fazer desacreditar no
Criador e no seu Amor.
Nos ensinamentos divinos, visando nossa perfeição no amor, o
Criador vai permitir que Sua graça seja sentida pelo fiel e opere sua
transformação no "ser" que Deus lhe deu para a
existência.
Devemos crer que em nossa trajetória existe, de fato, uma
pedagogia divina, um processo completo, onde o sofrimento, a morte e a
ressurreição encontram-se entrelaçadas, porque estão sob os auspícios do
Todo-Poderoso.
O profeta Ezequiel acentuou, nos seus escritos, quando
reconheceu: "Se Eu os tirei do Egito, foi
somente em consideração ao Meu nome, a fim de que não fosse (aquele povo) odiado
aos olhos das nações" (eu os fiz assim, sair do Egito, e os conduzi ao deserto)
(Ezequiel 20, 9-10).
Fica evidente a iniciativa do Senhor, quando Ele deseja e quer
participar da Salvação do seu povo, logrado as diversas fases
históricas.
O amor de Deus toma muitas vezes a forma de provação, situação na
qual o homem aceita o auxílio divino, reconhecendo que existe um Criador acima
dele, cheio de ternura e de graças para ajudá-lo a crescer e se
desenvolver.
Reconhecidamente, toda crise é prenhe de resultados. Atrás, ou
dentro de cada crise, já existe de forma embrionária (como semente) a
solução/resposta para aquele determinado problema. No auxílio que Deus nos
presta com sua graça, vão estar embutidos a força, a complementação e,
principalmente, a compreensão que necessitamos ter, como energia auxiliar, para
vencermos nossas dificuldades. É Deus quem pode e vai administrar, se deixarmos,
em sociedade conosco, os problemas e as situações pelas quais devemos passar,
amadurecendo, presente o que disse o profeta Ezequiel, quando completou: "Sou Eu que Sou o Senhor vosso Deus, e foi
nesse dia que jurei tirá-los do Egito para conduzi-los à terra que Eu escolhi
para eles, terra que emana leite e mel" (Ez 20,
5-6).

Como se não bastassem essas palavras tão encorajadoras, há ainda a
afirmação de que Deus nos dá, afirmando que é de Seu agrado, providencialmente,
um lugar onde poderemos nos saciar de Sua presença. O que mais podemos
desejar?
E, aonde temos colocado nossa esperança de
libertação?
Alguém me disse outro dia (eu gostei da frase) que no futuro
seremos cobrados não pelas falhas que cometemos, mas, principalmente, porque
deixamos escapar pelas mãos e não soubemos onde colocar nossas esperanças.
Concluí, então, que seremos julgados porque não
deixamos o Senhor ser o Deus de nossas vidas. Usurpamos o lugar da
divindade.
Felizmente, Deus está por detrás das soluções, aguardando tão
somente o pedido de auxílio do homem. Aceitando a ajuda divina, o homem cresce e
aprende a amar, superando suas limitações e deficiências. E, de posse das graças
divinas, pode e consegue fazer a travessia do deserto (terra inóspita e de
intensa batalha pela sobrevivência), porque Deus vai estar ali, de maneira
pedagógica, como compete a um Pai que se mostra amoroso e benevolente, velando
por nós, suas criaturas.
Oxalá, compreendêssemos a essas realidades tão simples e
convidativas. |