Poderíamos sintetizar toda a história do homem, a
finalidade de sua criação, a evolução de seu "ser" desde as origens, usando a
frase: Algo existe, algo é, algo está sendo. Embora sucinta e aparentemente
encoberta, essa frase quer dar a verdadeira dimensão do "ser" do homem, naquilo
que compreende a razão de ele estar no mundo. O "ser" no homem não é um acidente
estático. Esse "ser" é e está sempre em movimento, procurando atingir uma
realidade para a qual ele é convocado. Por isso, e de maneira intencional, foi
utilizada essa frase. Mas nem sempre conseguimos perceber essa realidade. Isso
nos tem escapado.
Quantas vezes experimentamos a sensação de que o
mundo que nos circunda foge à nossa compreensão e, ao se tornar uma massa
opressiva de dados, dificulta nosso ajustamento com ele?
Por que isso acontece com a maioria das pessoas? Por
que não conseguimos nos ajustar às várias realidades pelas quais passamos e que
nos dizem respeito? Por que não conseguimos ser melhores como criaturas? Essas
indagações não parecem ser um fenômeno recente. As pessoas tiveram a mesma
dificuldade na Antiguidade, fazendo as mesmas perguntas.
Essa situação - e outras pertinentes - incomodava as
pessoas e elas foram atrás das respostas. Essas pessoas são chamadas de sábios,
pensadores, filósofos e recebem, hoje, nosso reconhecimento. Foi através delas e
de suas dúvidas que se desenvolveram as ciências; que se deram muitas
descobertas; que se chegou a resultados, como os conhecemos. Destaco
especialmente a Filosofia, que com o passar do tempo foi se atualizando, mesmo
com algumas variações impostas pelos que formularam perguntas, estudando-as
profundamente.
As divergências no campo da experiência nem sempre
configura conflito, principalmente nas matérias relacionadas com a realidade do
ser humano, seu "estar-no-mundo" e as implicações dessa ocorrência. Quando se
percebeu que a consciência e o mundo se apresentam imediatamente, logo notamos
que não compreendemos a totalidade do real, que somos apenas parte
dele.
Ao nos debruçarmos sobre estas questões e, em
particular, sobre o homem, elas se aprofundam, ganham cores, maior significado,
fazendo-nos perceber que o mundo não é um bloco uno e monolítico, mas algo que
se reparte, que é seccionado em diversas determinações.
Essa conscientização vivida pelo homem se alarga e
ele chega à percepção de que o mundo faz parte de sua vida. É nele - no
mundo - que o homem vive e deve se relacionar. E, porque isso se tornar tão
evidente, surge uma preocupação com a sua preservação. Há, então, por parte do
homem, uma relação de fraterna intimidade, de gratuidade e
reconhecimento.
"Preservar o mundo em que se vive" - apregoa-se.
Conservá-lo é, em suma, uma necessidade. Sabemos bem disso. E essa parece ser
uma evidência que diz ao homem que "há algo" e, por extensão, uma segunda
evidência que lhe diz que ele não é esse algo, mas que participa
dele.
O homem acaba por sentir (felizmente isso está
acontecendo) que por trás de todo esse espetáculo do real há um fundo, um palco
a lhe sustentar. Dividimos todos, nós e os outros seres com os quais
interagimos, uma mesma base. Vivemos todos em "um mesmo
jardim".
Embora o Absoluto se nos escape, Ele permanece ali e
aqui, em toda a parte, nos diversos seres que criou. Compreendemos, então, que
"tudo" está eivado de bondade e em cada um dos seres existe dessa
substancialidade de Deus.
Se a matéria teológica pretende tratar das coisas de
Deus, podemos dizer, então, "que Deus colocou Teologia em tudo o que fez". Essa
é a forma que encontro para falar de todo o Seu Amor pelas coisas que criou
principalmente o homem.
Mesmo assim, essa descoberta que podemos fazer ainda
não nos satisfaz. Queremos mais... Nossa natureza deseja mais... É como se
admitíssemos que ela contém em si mesma, como componente de seu destino, um
anseio pelo "Bem"; não um bem qualquer, obtido como resultado de nosso
emocional, mas um "Bem" de raiz, um "Bem verdadeiro". Por isso que, na ausência
desse Bem, o homem irá tateando e se decepcionando com as tentativas que faz,
principalmente quando não se "abre", acolhendo as luzes geradas por esse "Bem"
para o qual nasceu e foi criado.
Mas, por que este Algo não se nos apresenta por
inteiro? A pergunta já foi respondida: não somos tudo, e esta é a causa máxima
de todas as nossas angústias. Limites e obstáculos impõem-se diante de nós o
tempo inteiro, não só no mundo material, como, principalmente, na atividade da
consciência. Ao refletir, ao ponderar, o espírito busca realizar um desejo
profundo: o de subir a escala da Criação e abarcar toda a
realidade.
Conforme atinge novos planos, conforme se afirma e se
atualiza mais como "ser", o homem se maravilha com
a Luz, se regozija na estabilidade e fica com a impressão de que tudo será mais
fácil, sentindo, com isso, "ganhar um suplemento de vida". Mas isso nem sempre
ocorre. Ao olhar para baixo, o homem vê que o seu mundo empírico ficou por
demais distante, tênue e sem cor; o espírito, então, retorna ao seu ponto de
origem, ansioso por voltar a experimentar aquelas sensações tão vívidas que o
recolocam em seu habitat natural; não demora muito, porém, e ele lamentará ter
imergido novamente nas águas confusas, enquanto aquelas luzes do firmamento, lá
em cima, tornam a ficarem opacas, sem vida, fugidias. Não são necessários muitos
desses trajetos para que o espírito entenda que lhe é impossível, dentro dos
esquemas humanos, viver ambos os mundos.
A criação do céu e da terra o precede e o sujeito se
vê confrontado no eterno movimento de quem nunca se satisfaz com uma só morada.
Esta parece ser completa verdade, porque esta é a ânsia do espírito, a sua
vontade de potência (possibilidades) e sua máxima superação.
Está posta a questão! Parece oportuno colocar, neste
final de texto, uma oração - e ela clama: "Mostrai para todas as vossas
criaturas pensantes, Senhor, com um sentido real e pleno, que Suas obras os
Seguem! Lá onde estão as estrelas, Vós estais; lá onde brilha o sol, Vós estais;
nas águas volumosas dos oceanos, Vós estais presente; nos arbustos, nas
campinas, nas montanhas, no frio, na chuva, na neve, nos insetos, nas flores e
nos seus espinhos, no ato da corça beber água, estais também! Vós estais
presente em tudo que criastes. E, de maneira significativa, no homem, a quem
deste o espírito da vida. E, lá, no interior dele, no mais profundo de seu
'ser', quando possa estar reinando o maior caos, ou possa existir o maior
problema, a maior dúvida; e quando ele se sentir angustiado, sem amigos, sem
protetor, sem rumo e com suas dores, que ele vislumbre ou escute uma Voz que o
convida ao perdão, à paz, ao Bem. Que nesse momento ele sinta que não está só,
porquanto o homem tem dentro de si um amigo, um confidente. Na verdade, um Deus
que o ama e o criou para ser - aceitando Sua oferta - verdadeiramente
feliz".
Não bastasse, Deus experimentou, na forma humanada - em Jesus - todas as
situações de dificuldade - todas elas - com as quais, nesta terra, o homem possa
experimentar. Depois de passar por elas, aprovou-as e as abençoou, deixando-nos
um modelo a ser seguido. |