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Artigos - Mário Eugênio Nogueira

 

VIVER EM DOIS OS MUNDOS
10/6/2013

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Poderíamos sintetizar toda a história do homem, a finalidade de sua criação, a evolução de seu "ser" desde as origens, usando a frase: Algo existe, algo é, algo está sendo. Embora sucinta e aparentemente encoberta, essa frase quer dar a verdadeira dimensão do "ser" do homem, naquilo que compreende a razão de ele estar no mundo. O "ser" no homem não é um acidente estático. Esse "ser" é e está sempre em movimento, procurando atingir uma realidade para a qual ele é convocado. Por isso, e de maneira intencional, foi utilizada essa frase. Mas nem sempre conseguimos perceber essa realidade. Isso nos tem escapado.ser-humano.jpg

 

Quantas vezes experimentamos a sensação de que o mundo que nos circunda foge à nossa compreensão e, ao se tornar uma massa opressiva de dados, dificulta nosso ajustamento com ele?

 

Por que isso acontece com a maioria das pessoas? Por que não conseguimos nos ajustar às várias realidades pelas quais passamos e que nos dizem respeito? Por que não conseguimos ser melhores como criaturas? Essas indagações não parecem ser um fenômeno recente. As pessoas tiveram a mesma dificuldade na Antiguidade, fazendo as mesmas perguntas.

 

Essa situação - e outras pertinentes - incomodava as pessoas e elas foram atrás das respostas. Essas pessoas são chamadas de sábios, pensadores, filósofos e recebem, hoje, nosso reconhecimento. Foi através delas e de suas dúvidas que se desenvolveram as ciências; que se deram muitas descobertas; que se chegou a resultados, como os conhecemos. Destaco especialmente a Filosofia, que com o passar do tempo foi se atualizando, mesmo com algumas variações impostas pelos que formularam perguntas, estudando-as profundamente.

 

As divergências no campo da experiência nem sempre configura conflito, principalmente nas matérias relacionadas com a realidade do ser humano, seu "estar-no-mundo" e as implicações dessa ocorrência. Quando se percebeu que a consciência e o mundo se apresentam imediatamente, logo notamos que não compreendemos a totalidade do real, que somos apenas parte dele.

 

Ao nos debruçarmos sobre estas questões e, em particular, sobre o homem, elas se aprofundam, ganham cores, maior significado, fazendo-nos perceber que o mundo não é um bloco uno e monolítico, mas algo que se reparte, que é seccionado em diversas determinações.

 

Essa conscientização vivida pelo homem se alarga e ele dois-mundos.jpgchega à percepção de que o mundo faz parte de sua vida. É nele - no mundo - que o homem vive e deve se relacionar. E, porque isso se tornar tão evidente, surge uma preocupação com a sua preservação. Há, então, por parte do homem, uma relação de fraterna intimidade, de gratuidade e reconhecimento.

 

"Preservar o mundo em que se vive" - apregoa-se. Conservá-lo é, em suma, uma necessidade. Sabemos bem disso. E essa parece ser uma evidência que diz ao homem que "há algo" e, por extensão, uma segunda evidência que lhe diz que ele não é esse algo, mas que participa dele.

 

O homem acaba por sentir (felizmente isso está acontecendo) que por trás de todo esse espetáculo do real há um fundo, um palco a lhe sustentar. Dividimos todos, nós e os outros seres com os quais interagimos, uma mesma base. Vivemos todos em "um mesmo jardim".

Embora o Absoluto se nos escape, Ele permanece ali e aqui, em toda a parte, nos diversos seres que criou. Compreendemos, então, que "tudo" está eivado de bondade e em cada um dos seres existe dessa substancialidade de Deus.

 

Se a matéria teológica pretende tratar das coisas de Deus, podemos dizer, então, "que Deus colocou Teologia em tudo o que fez". Essa é a forma que encontro para falar de todo o Seu Amor pelas coisas que criou principalmente o homem.

 

Mesmo assim, essa descoberta que podemos fazer ainda não nos satisfaz. Queremos mais... Nossa natureza deseja mais... É como se admitíssemos que ela contém em si mesma, como componente de seu destino, um anseio pelo "Bem"; não um bem qualquer, obtido como resultado de nosso emocional, mas um "Bem" de raiz, um "Bem verdadeiro". Por isso que, na ausência desse Bem, o homem irá tateando e se decepcionando com as tentativas que faz, principalmente quando não se "abre", acolhendo as luzes geradas por esse "Bem" para o qual nasceu e foi criado.

 

Mas, por que este Algo não se nos apresenta por inteiro? A pergunta já foi respondida: não somos tudo, e esta é a causa máxima de todas as nossas angústias. Limites e obstáculos impõem-se diante de nós o tempo inteiro, não só no mundo material, como, principalmente, na atividade da consciência. Ao refletir, ao ponderar, o espírito busca realizar um desejo profundo: o de subir a escala da Criação e abarcar toda a realidade.

 

Conforme atinge novos planos, conforme se afirma e se atualiza mais como "ser", o homemHuman-Being.jpg se maravilha com a Luz, se regozija na estabilidade e fica com a impressão de que tudo será mais fácil, sentindo, com isso, "ganhar um suplemento de vida". Mas isso nem sempre ocorre. Ao olhar para baixo, o homem vê que o seu mundo empírico ficou por demais distante, tênue e sem cor; o espírito, então, retorna ao seu ponto de origem, ansioso por voltar a experimentar aquelas sensações tão vívidas que o recolocam em seu habitat natural; não demora muito, porém, e ele lamentará ter imergido novamente nas águas confusas, enquanto aquelas luzes do firmamento, lá em cima, tornam a ficarem opacas, sem vida, fugidias. Não são necessários muitos desses trajetos para que o espírito entenda que lhe é impossível, dentro dos esquemas humanos, viver ambos os mundos.

 

A criação do céu e da terra o precede e o sujeito se vê confrontado no eterno movimento de quem nunca se satisfaz com uma só morada. Esta parece ser completa verdade, porque esta é a ânsia do espírito, a sua vontade de potência (possibilidades) e sua máxima superação.

 

Está posta a questão! Parece oportuno colocar, neste final de texto, uma oração - e ela clama: "Mostrai para todas as vossas criaturas pensantes, Senhor, com um sentido real e pleno, que Suas obras os Seguem! Lá onde estão as estrelas, Vós estais; lá onde brilha o sol, Vós estais; nas águas volumosas dos oceanos, Vós estais presente; nos arbustos, nas campinas, nas montanhas, no frio, na chuva, na neve, nos insetos, nas flores e nos seus espinhos, no ato da corça beber água, estais também! Vós estais presente em tudo que criastes. E, de maneira significativa, no homem, a quem deste o espírito da vida. E, lá, no interior dele, no mais profundo de seu 'ser', quando possa estar reinando o maior caos, ou possa existir o maior problema, a maior dúvida; e quando ele se sentir angustiado, sem amigos, sem protetor, sem rumo e com suas dores, que ele vislumbre ou escute uma Voz que o convida ao perdão, à paz, ao Bem. Que nesse momento ele sinta que não está só, porquanto o homem tem dentro de si um amigo, um confidente. Na verdade, um Deus que o ama e o criou para ser - aceitando Sua oferta - verdadeiramente feliz".

 

Não bastasse, Deus experimentou, na forma humanada - em Jesus - todas as situações de dificuldade - todas elas - com as quais, nesta terra, o homem possa experimentar. Depois de passar por elas, aprovou-as e as abençoou, deixando-nos um modelo a ser seguido.